19.10.05
saber que nada sabe é saber que se é nada?!?!?
Todos acham muito bela a frase de Sócrates "Só sei que nada sei" que na verdade não é bem assim (mas isso não vem ao caso). Gostaria de saber quantos já sentiram na pele a verdade dessa expressão....

Nesse semana estou participando de um congresso de filosofia. Um encontro que reúne estudiosos de várias partes da América do Sul. É tudo muito bom até as palestras começarem. Não porque as palestras são ruíns, mas justamente o contrário: elas são tão boas que fazem eu me sentir um nada....

E logo eu que gosto de parecer tão inteligente, o sabe tudo, o estudioso e dominador dos assuntos que estão no top das discussões. AAAAAAAHHHHHHHHHH!!!!!! Como é horrível essa sensação. E ainda existem pessoas que acham estar abafando ao repetirem Sócrates....

Mas é claro que não é necessário ouvir grandes acadêmicos para se descobrir um nada. Muitas vezes nem eles sabem muitas coisas. Eu acho que as pessoas inteligentes desse mundo são as crianças. É. Porque a inteligência dos acadêmicos está na qualidade de repetir aquilo que já foi dito por alguém. Mas a intelgência das crianças está em mobilizar um mundo inteiro para cuidar delas. Qual é o acadêmico capaz disso? Mobilizar o mundo não está ao alcance das palavras, mas está nas mãos daqueles que são frágeis e conquistam pelo olhar....

Lutero dizia que Deus criou o mundo do nada, e Ele só faria algo do humano quando esse fosse um nada. Sócrates dizia que podemos saber apenas uma coisa: que nada sabemos. Eu digo: devemos ser crianças porque a sabedoria não está em saber que nada sabe e muito menos em saber que se é nada; mas está em deixar-se ser criança, pois é a fragilidade que conquista o amor e de lambuja a sabedoria....

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metamorfosiando
Já cantava Raul Seixas: "eu prefiro ser essa metamorfose ambulante...." Eu também cantei por muito tempo, e até achava legal. Mas quando você "metamorfoseia" demais, e parece jamais sair dessa sina de não saber quem é, a coisa fica chata. E esse momento de mutação em minha vida me fez pensar um pouco sobre mudanças.

Não tenho certeza, mas a princípio parece haver dois empecilhos para que mudanças ocorram, seja em relação ao mundo que nos cerca, seja em relação a nós mesmo, e quero pensar um pouco sobre aquilo que atrapalha as nossas mudanças. E como já disse, encontro dois empecilhos: 1) nós mesmos; 2) os outros.

Sobre nós mesmos não há muito a dizer. Nós somos empecilhos para nossas mundanças quando nós mesmos não desejamos mudar; ou quando desejamos mudar demais, assim como o Raul. Não querer mudar implica em grande parte das vezes se tornar um intolerante, um dogmatico; é tapar os olhos e ouvidos de tudo e todos achando que é senhor si e o problema está nos outros. Enfim, um soberbo.

Por outro lado, seguir o Raul deixando-se levar pelas mudanças, revela em primeiro lugar falta de personalidade. E me parece ser esse o grande problema hoje. As pessoas não tem mais persona-lidade (persona = pessoa), mas tem outro-lidade (outro = "o outro mesmo"): tem a identidade dos outros. Além do mais, falta de personalidade é deixar-se nas mãos dos outros por falta de coragem de assumir a própria vida.

Os outros, por incrível que pareça, também são empecilho para nossa mudança. E isso parece apresentar um parodoxo: o principal fator que nos leva a mudar não são os outros? Então como eles podem ser um empecilho? Bem pode ser que eu esteja errado, mas apesar dos outros desejarem nossa mudança, nem sempre eles ficam felizes pelo ocorrido, mesmo que seja para melhor. E demonstro porque penso assim.

Quando mudamos, seja para melhor ou para pior, nos tornamos como desconhecidos para aqueles de quem eramos conhecidos. Antes da nossa mudança, as pessoas sabiam de nossas reações a determinados fatos, e sabiam o que esperar frente a determinados estímulos. E quando mudamos, as pessoas não sabem mais o que esperar de nós, e consequentemente, não nos podem dominar.

E também, a nossa mudança revela aos outros uma face deles que eles mesmos não conheciam. Um exemplo. Uma pessoa má que resolve mudar, e essa mudança leva-a a praticar um bem justamente para a pessoa que ela mais odiava anteriormente. E qual a reação dessa última? No mínimo a pessoa ficaria na dúvida, e isso revela que ela não era tão boa quanto pensava ser. E as pessoas muitas vezes não querem que mudemos porque elas sabem que a nossa mudança implica necessariamente em mudança na vida delas.

É claro que isso não passa de um monte de idéias. Mas se por ventura isso chegar a ser real, me perdoem aqueles a quem minha mudança vem atingindo e espero que a maioria fique feliz pelo que há de vir. Já aqueles que não desejam que eu mude, eu só tenho a lamentar e torcer para que vocês passem pelo mesmo processo....

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