24.11.08
sem título #1
o fragmento;
parte
da tua sempre partida.

a irrazão;
loucura
da tua constante inconstância.

o amor;
fraqueza
da tua rompante paixão.

sou fragmento
sou loucura
sou amor

a irrazão

tua sempre
partida;
constante
rompante
na inconstante
paixão.

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posted by rafael at 10:30 | Permalink | 3 teste tua chave
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22.11.08
doente
doente.
assim permaneci e não melhorei enquanto os números do calendário corriam em lágrimas dos olhos.

doente do mundo, das suas exigências, padrões, do que se deve ser e fazer para ter o modelo de paz, tranquilidade, segurança e conforto por ele proposto. não faz sentido para mim. não tenho anti-corpos para resistir as suas investidas.

doente de mim, das minhas frustrações, das metas nunca minhas, dos sonhos terceirizados que nada tem haver comigo. da minha passividade, da fraqueza de me impôr, da covardia de investigar quem sou e de assumir como quero ser. o mundo tem anti-corpos suficientes para acabar quem esses reles vírus, tão míseros que não servem nem para constar entre as doenças populescas.

doente, e agravado por feridas permanentemente abertas. incompreensões pertubadoras. negações de compactuar com o que me parece mal. resiliência para dirimir sofrimentos alheios. culpas. perdas. erros cometidos dos quais não me perdôo, dúvidas. feridas que não encontram cura devido ao cansaço do corpo da alma.

doente do mundo
doente de mim
doído e mudo
aguardei o fim

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posted by rafael at 16:20 | Permalink | 1 teste tua chave
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4.4.08
primeiro amor - beckett (I)
Epitáfio:
"Aqui jaz quem daqui tanto escapou
Que só agora não escape mais"

"Mas aos vinte e cinco anos ele ainda está sujeito à ereção, o homem moderno, fisicamente também, de vez em quando, é o quinhão de cada um, nem eu estava imune, se é que aquilo pode ser chamado de ereção. Ela percebeu, naturalmente, as mulheres farejam um falo no ar a mais de dez quilômetros e se perguntam, Como é que aquele ali me descobriu? Não somos mais nós mesmos, nessas condições, e é penoso não ser mais você mesmo, ainda mais penoso do que sê-lo, apesar do que dizem. Pois quando o somos, sabemos o que temos que fazer para sê-lo menos, ao passo que quando não o somos mais somos qualquer um, não há mais como nos apagar. O que se chama amor é o exílio, com um cartão-postal da terra natal de vez em quando, foi esse meu sentimento naquela noite."

"É incrível como as pessoas repetem o que acabamos de lhes dizer, como se corressem o risco de ir para a fogueira ao acreditar em seus próprios ouvidos. Disse para ela vir de vez em quando. Eu conhecia mal as mulheres, naquela época. Ainda as conheço mal, aliás. Os homens também. Os animais também. O que conheço menos mal são minhas dores. Penso nelas todas, todos os dias, é rápido, o pensamento vai tão depressa, mas elas não vêm todas do pensamento. Sim, há momentos, principalmente à tarde, em que me sinto sincretista, à maneira de Reinhold. Que equilíbrio. Aliás, conheço mal também minhas dores. Isso deve ser porque não sou apenas dor. Aí está a astúcia. Então me afasto, até o espanto, até a admiração, como de um outro planeta. Raramente, mas é o bastante. Nada cretina, a vida. Ser apenas dor, como simplificaria as coisas! Ser todo-dolente! Mas isso seria concorrência, e desleal. Eu lhes contaria assim mesmo, um dia, se me lembrar, e tomara que consiga, minhas estranhas dores, em detalhes, e distiguindo-as bem, para maior clareza. Falarei das dores do entendimento, as do coração ou afetivas, as da alma (muito simpáticas, as da alma), e depois as do corpo, primeiro as internas ou ocultas, depois as da superfície, começando pelos cabelos e descendo metodicamente e sem pressa até os pés, abrigo dos calos, cãibras, joanetes, unhas encravadas, frieiras, pés-de-atleta e outras esquisitices. E àqueles que forem gentis o bastante para me escutar contarei na mesma ocasião, de acordo com um sistema cujo autor não me recordo, os instantes que, sem estar drogado, nem bêbado, nem em êxtase, não se sente nada."

Samuel Beckett. Primeiro Amor. Cosac Naify, 2004.

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posted by rafael at 09:00 | Permalink | 2 teste tua chave
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3.4.08
do corpo reescrito
escrevo muito;

pouco.
falta
você.

[meu] conforto.


descrevo pouco.
muito
reconforto.


perma[usê]ncia:


re-d-escrevo
tudo.
desconforto
você.

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posted by rafael at 09:05 | Permalink | 6 teste tua chave
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2.4.08
da completude
te amo
como quem nada quer
pois tenho tudo
querendo-te
amar.

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posted by rafael at 11:40 | Permalink | 4 teste tua chave
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26.3.08
produtos
Peter Sloterdijk, na obra “Regras para o Parque humano” nascido a partir de uma palestra proferida em 1999 e na qual dialoga com e responde a “Carta sobre o Humanismo” de Martin Heidegger, procura pensar o ponto obscuro do humanismo, que na sua tese trata-se da produção e domesticação do homem. Sloterdijk não fala de antropologia, e sim de antropotécnica. A tese central da obra é a definição do homem como um produto. Para o autor, desde Platão essa é uma idéia presente na história do pensamento filosófico.

Retomando alguns pontos do diagnóstico feito por Nietzsche do humanismo até então em voga, Sloterdijk considera que a idéia de humanidade não se restringe as relações fraternas entre os homens, mas que também traz implicitamente, e que nos últimos tempos vem se desvelando, a idéia de poder do homem sobre o homem. Nesse ponto torna-se claro o humanismo como uma antropotécnica: o homem é um animal produzido e domesticado por outro homem. E o autor encontra esse projeto já delineado em Platão, que em sua opinião teria desenvolvido um preâmbulo de uma “antropotécnica política”, projeto esse que iria para além da domesticação do humano, visando a criação mais próxima possível do homem ideal.

Lendo essa obra, recordei de um comentário deixado no texto "A infância perdida", do Fábio Centenaro. Reproduzo o comentário logo abaixo.

Concordo com a análise da atual conjuntura moral e social na qual estamos mergulhados. Mas não sei se as crianças foram em algum tempo tratadas como crianças. Tenho comigo que elas sempre foram tidas como mini-adultos e são poucas aquelas que realmente tiveram uma infância dedicada as brincadeiras e a “inocência”.

Basta olharmos a história e ver como o trabalho infantil sempre foi utilizado, e ainda hoje temos esse problema. Cresci no interior do país e com crianças que desde cedo tiveram que trabalhar no campo, plantando, colhendo, tirando leite, ajudando os pais no seu pequeno comércio e indo a escola. E aquelas que tinham uma condição de vida mais abastada, eram colocadas em cursos 'disso' e 'daquilo' porque “é preciso se preparar desde cedo para quando crescer ganhar bem”.

Talvez eu esteja sendo ousado em dizer isso, mas creio que vivemos uma infantilidade generalizada: nós adultos queremos nos entregar a todos os desejos como crianças que querem um doce. E assim acabamos agindo como crianças que ainda não tem idéia de que o mundo não gira em torno de nós. Disso, decorre o fato de nós adultos olharmos as crianças como “mini-nós”, e fazemos com que elas tenham uma visão equivocada de que os adultos são felizes.

Por fim, me parece uma quimera pensar que um dias elas foram tratadas como crianças. Penso que elas sempre foram vistas como projeto de adultos, pois “elas são o amanhã”.

De minha parte, tive a sorte de ser criança [seja lá o que isso signifique], e desejo nunca esquecer disso…

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posted by rafael at 00:15 | Permalink | 2 teste tua chave
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13.2.08
das perdas


Quando acaba, recomeça?


*********


Diga "não te amo"
que aceito, ainda de mal grado;

Mas não diga "não me ame"

pois não suporto amor guardado.

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posted by rafael at 20:29 | Permalink | 8 teste tua chave
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25.1.08
lembro, e com boas memórias
Ser personagem viva na lembrança de alguém não significa necessariamente ser benquisto pela pessoa. O bem da verdade é que as dores geralmente ocupam os primeiros lugares em nossas lembranças, permanecem por mais tempo vivas e são recorrentes com mais frequência. Talvez se deva ao fato de precisarmos sempre de uma motivação para estar feliz, enquanto que para se estar triste, basta estar só. Não que a solitude implique na tristeza; ao contrário, é imprescindível o estar só para medirmos o quanto somos nós e o quanto somos outros. E a tristeza espreita justamente na hora dessa medição, na hora do encontro comigo mesmo. Para se estar triste basta estar só porque é nesse momento que ocorre o nosso encontro com nossas mazelas, medos, inseguranças, decepções, sendo essas e algumas outras o alimento da dor. Daí as dores ocuparem os primeiros lugares em nossas lembranças, pois quando não somos distraídos pelo mundo fora de nós, somos levados involuntariamente para os aposentos nos quais são guardadas as incomodas velharias. Em muitos casos as personagens vivas na lembrança de alguém são justamente aquelas que geraram alguma dor. Cada um sabe o que já sofreu com outra pessoa, e por isso poupo-me de exemplificar. E quem gera dor, seja no entendimento, no coração, no afeto, na alma ou no corpo, normalmente não é benquisto. Mas ainda assim é lembrança viva, e mais viva do que as benquistas.

Ser esquecido também não implica em não ser mais benquisto e ter sido deixado de ser amado. Como já disse noutro momento: "Não podemos nos culpar por algumas amizades não mais cultivadas e pensarmos que isso seja consequência da nossa falta de afeto simplesmente. A vida é feita de histórias individuais onde cada qual escreve um diferente roteiro. Em algum momento mudamos e também nossos amigos e amigas. Por vezes, essas mudanças aproximam ainda mais. Porém, bem sabemos que elas mais distanciam, pois não mudamos da mesma forma e para a mesma direção. Tenho muitas amizades que hoje encontram-se apenas nas lembranças, mas nem por isso deixam de ser amizades e pertecentes a um passado irrecuperável. A verdade é outra: essas amizades ainda são presentes justamente por nos acompanharem ainda hoje em forma de lembranças e por ser responsáveis por quem somos nesse exato segundo e em todos àqueles porvir (...) É marcar elas de modo que sintam a necessidade de ser afetiva com as demais pessoas."

Ser amado e benquisto não se reconhece no fato de estarmos vivos na lembrança de alguém. Há apenas um modo nos reconhecermos amados e benquistos: nas provas de amor. "E o amor está na doação. Amar não é apenas um sentimento interno. Mas também, e principalmente, uma ação externa. Amor somente é amor quando se exterioriza. Daí ser fenômeno - palavra que vem do grego phainomenon que significa "aparência". Por isso não pode ser apenas um sentimento interno. Porque lá dentro somente nós vemos. E amor não é para nós, mas para os outros."

Eu tenho sido um dos poucos sobreviventes desse mundo egoísta a ser alvo da lembrança benquista e do amor provado. A meses ando recolhido em algum canto de meu espírito e por isso displicente na prova de meu amor e de minhas lembranças benquista de você, insistente em me visitar. A prova veio com a Van no selo "blog cabeça" e a com o "esse blog vale a pena conferir".







Infeliz
mente você não pode ver meu sorriso e meus olhos testemunhando meu apreço por ter teus olhos pousado sobre minhas parcas palavras. Mas enquanto não tenho provas, rogo por tua confiança nas minhas benquistas, ternas e amadas lembranças de tua singela passagem por sobre o rafael escrito nesses tortuosos vocábulos.

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posted by rafael at 19:35 | Permalink | 7 teste tua chave
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14.1.08
despedidas
Tua ida
leva a minha

vida

finda.



Volta
vida finda,
minha
ida.

Finda a ida,
tua
minha

....................................vida


fica.

*********************************************************************
Autocrítica:

Relendo depois de algumas horas, achei que a disposição das palavras tornou o texto muito complicado (para não dizer ruim). Segue abaixo o primeiro rascunho.

Tua ida
leva a vida
já pouca
já finda.

Tu voltas?
vida
pouca
finda....

Tu, vida,
finda a ida.
Fica!?

Aproveitando o ensejo, estou pensando numa disposição mais simples, contudo inteligível, como se segue:

Tua ida
leva a minha

vida

...................finda.


Volta
vida finda,
minha
ida.

Finda a ida,
tua
minha

vida
fica.

Ah, pensando bem, desculpe o transtorno! Vou deixar a preguiça de lado e trabalhar melhor o texto.

reatulizado às 22:03

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posted by rafael at 17:45 | Permalink | 4 teste tua chave
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6.1.08
cultivar amizades
Penso não ser poucos esses que tem dificuldade em demonstrar afeto pelas pessoas. De fato, acredito estar ocorrendo uma crise de carência afetiva que se manifesta nos extremos de nos tornarmos pessoas gélidas e resabiadas ou de nos entregarmos facilmente a qualquer pessoa. Ambas atitudes são perigosas e perniciosas. Ao nos fecharmos, deixamos de experimentar o afeto, já que o prazer desse não está apenas no seu recebimento, mas também, e principalmente, em dá-lo. Quando nos entregamos muito facilmente àquele que nos cativa com afetos, o dano se encontra quando nos tornamos escravos desses afetos e assim ficarmos a mercê de um sentimento muitas vezes egoísta e que não nos eleva a experiência do amor.

Não podemos nos culpar por algumas amizades não mais cultivadas e pensarmos que isso seja consequência da nossa falta de afeto simplesmente. A vida é feita de histórias individuais onde cada qual escreve um diferente roteiro. Em algum momento mudamos e também nossos amigos e amigas. Por vezes, essas mudanças aproximam ainda mais. Porém, bem sabemos que elas mais distanciam, pois não mudamos da mesma forma e para a mesma direção. Tenho muitas amizades que hoje encontram-se apenas nas lembranças, mas nem por isso deixam de ser amizades e pertecentes a um passado irrecuperável. A verdade é outra: essas amizades ainda são presentes justamente por nos acompanharem ainda hoje em forma de lembranças e por ser responsáveis por quem somos nesse exato segundo e em todos àqueles porvir.

Por isso, antes do nos culparmos ou pensarmos que temos problemas para demonstrar afetividade, vale a pena o esforço de amar. E o que seria amar? Ao meu ver é viver de tal modo que sejamos sempre presente na vida das pessoas, mesmo ficando no seu passado. É marcar elas de modo que sintam a necessidade de ser afetiva com as demais pessoas. Somente perdemos amizades quando a mágoa preenche o espaço infinito que separa o "eu" do "tu". Mas enquanto esse espaço continuar desocupado, sempre há a chance de nele ser construida uma amizade que não se perde no tempo, pois quando existe amor, tudo é presente.

E as sementes de uma amizade sincera está plantada entre nós.


E-mail em resposta a uma querida leitora que compartilhou de si num comentário ao texto "É a verdade mais pura, eu não consigo amar".

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posted by rafael at 17:58 | Permalink | 12 teste tua chave
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19.12.07
ser forte para tomar as dores
tuas em minhas
todas em nossas
mesmo tu temendo compartilhar

ter fé para deslocar os montes
tirá-los do teu caminho
aplainar nossas passagens
mesmo tu temendo atravessar

quero ser um contigo
deixe tu assim ser comigo
nas tuas dores
em nossos montes
por misera fé
mesmo tu temendo eu te amar

dá-me tua cruz
deixa nela eu estar
com indefeso peito
para em abertos braços

teus montes e dores
por ti superar

[mesmo eu temendo tu não me amar]

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posted by rafael at 01:50 | Permalink | 12 teste tua chave
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30.11.07
falta - necessidade de você
a falta
lancinante
aflige.
reduntantemente sofrega
e abismal,
testemunha:
você está em mim.

Ausência -
tua presença.

a falta.
necessidade
de você
e sempre
enquanto saltar
o abismo.

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posted by rafael at 00:16 | Permalink | 4 teste tua chave
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27.11.07
teu forte abraço
braço forte
teu abraço
despedida, como morte
e meu fracasso
na garganta, em nó
tu, desembaraço
eu, só

no pescoço
hoje, nó
do forte abraço.

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posted by rafael at 01:30 | Permalink | 1 teste tua chave
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18.11.07
um rei? não. um reino!

Não gostam, pois age, dizem, como quem tem o rei na barriga.
Gente pobre!
Não percebem que tem um reino todo dentro de si?


imagem: First Price, 1998 (Mixed media on wood) -
Chenco
www.gettyimages.com

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posted by rafael at 00:39 | Permalink | 5 teste tua chave
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4.11.07
em retalhos para ser despido
A muito tempo venho baixando a guarda.
Tenho aceito certas coisas sobre mim e permitido ser conhecido de outro modo.

Ser um
nos muitos
dos quais
nenhum
apraz

É como se estivesse dizendo: tome a mim e faça o que você quiser.
Sinto como se estivesse entregue e que a partir de agora outros tem total controle sobre mim, como se pudessem manipular-me a bel prazer.

Não sei quem sou
Nem quem serei
Mas sei quem fui
E daquele, eu não gostei

Contudo, tenho descoberto que entregando-me totalmente, dando-me a conhecer, as pessoas não podem fazer nada contra mim. Pois tudo o que elas têm é apenas eu. O que elas podem fazer é jogar eu contra eu mesmo. E meu revide se resume em responder: sim, esse sou eu.

Sou mais um
dos muitos
que é ninguém
por ser todos

Não há defesa. Não há ataque. Há apenas o conhecimento. Há apenas o fato de eu ser e das pessoas saber que não podem fazer nada além de me aceitar ou rejeitar.

O conhecimento vai de encontro, e na vivência vai desvelando, despindo e percebendo que em cada detalhe conhecido, existem muitos outros, infinitos, infindáveis, para serem revelados.


Recordo de Adão no Éden. Ele escondeu a sua nudez de deus após ter pecado. Na cruz, Jesus, que na crença cristã morreu afim de pagar pelo pecado de Adão, teve suas vestes rasgadas: ele ficou nú na cruz! A salvação chegou por meio da nudez de Cristo.

Adão, culpado, esconde sua nudez. Cristo, inocente, entrega-se nú em favor do mundo.

Eis o grande desafio: ficar nú.
Porque na nudez não se esconde nada. E onde não há nada para esconder, também não há nada para provar.

Retorno para ser por ti despido

reflexão nascida de diálogos com a encantadora Sandra e encrementado com retalhos de textos já postados.

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posted by rafael at 01:20 | Permalink | 9 teste tua chave
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1.10.07
a cobrança do amor
O amor, na sua dose de racionalidade, leva em conta os limites existentes e não cobra nada além deles pois sabe que isso gera sofrimento.

Um "amor" que cobra, não ama o outro, mas ama uma idéia de outro, e cobra do outro que ele satisfaça esse ideal.

Ora, amor é aceitação antes de tudo.

Ao meu ver, a única cobrança que amor faz é que o outro se torne cada vez mais capaz de amar do mesmo modo em que é capaz de aceitar o amor de outros.


Trecho de um dos tantos excepcionais e engrandecedores diálogos tido com a Priscilla.

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posted by rafael at 02:15 | Permalink | 5 teste tua chave
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26.9.07
a salvação está no outro (III)
Se Deus é amor, só pode ser verdadeiramente conhecido através da experiência do amor. Todo amor procede de Deus de algum modo, e portanto, todo amor revela Deus de algum modo (1Jo 4.7). A experiência pode ser instantânea ou paulatina, viva ou apenas perceptível, mas sua realidade e sua autenticidade se mede sempre pela mudança que provoca em nossa relação com os outros (1Jo. 3.14).

É por isso que Jesus cita o amor ao próximo como o segundo grande mandamento. Se no primeiro grande mandamento Jesus resume os três primeiros preceitos do decálogo, nesse segundo Jesus inclui o restante. Na passagem de Mc. 12.28.34, Jesus fala pela segunda vez sobre o grande mandamento. A primeira no livro do evangelista, ocorre no cap. 10.17-19. E vale destacar a diferença.

Em Mc. 10.27-29 Jesus cita somente os mandamentos éticos contidos no decálogo. A condição é, pois, não causar prejuízo a ninguém, manifestação mínima do amor; ela corresponde à regra de conduta proposta pelos doutores judeus como compêndio da lei, que interpretava o mandamento do amor ao próximo de modo puramente negativo: “não faças ao outro o que não quererais que façam a ti”. Aqui, a ênfase está no respeito ao próximo, que mostra já certa responsabilidade pelo bem-estar; a pessoa não deve contribuir para o aumento da injustiça no mundo.

Por sua vez, em Mc. 12.38-34 Jesus acrescenta o mandamento resumo de Lv. 19.18: “Ama a teu próximo como a ti mesmo”. A lei não é mais formulada aqui de forma negativa, como faziam os doutores, mas de forma positiva. Essa forma positiva deve ser interpretada em sentido ativo, na atividade em favor do próximo; atividade que não põe em perigo o próprio bem-estar.

Frei Betto, sacerdote católico ao comentar sobre a proibição feita por Deus sobre a confecção de imagens para a adoração diz:

"Os profetas, ao condenarem essa tentação do povo (de construir imagens), queriam dizer algo muito simples: 'Se querem louvar e servir a Javé, façam-no na única imagem Dele que Ele nos concedeu, que é o próximo. É muito cômodo adora-lo na montanha, no bezerro ou no carvalho, difícil é serví-lo a adorá-lo no próximo, a imagem e semelhança de Javé'. Louvar a Javé é louvar a criatura, criação do Senhor. Reconhecer essa criação é, como dizia Jesus, fazer a vontade do Pai, que é a prática da justiça, e não a louvação como abstração, coisa em si, que prescinda a mediatização do próximo."

A insegurança da salvação, conseqüência da idéia de Deus ambíguo, atormenta o ser humano e paralisa sua ação. Se ele não está seguro do amor de Deus, tem, por conseguinte, insegurança de sua salvação futura e concentra seu esforço e sua energia na solução deste problema crucial. Vive angustiado, dependente de si mesmo e preocupado com seu destino. Não tem tempo para dedicar-se aos outros.

Quando Jesus assegura ao ser humano que Deus não é problema e que pode contar sempre com seu amor, descentraliza a pessoa de si mesma e a liberta para que possa dedicar suas energias a amar aos outros.

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posted by rafael at 00:30 | Permalink | 4 teste tua chave
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24.9.07
a salvação está no outro (II)
A ruptura da visão de Deus como um soberano que impões sua vontade aos súditos é feita mediante a instauração de uma nova visão da relação do humano com Deus: não mais de soberano-súdito, mas de Pai e filho. A nova relação Pai-Filho entre Deus e o humano a que Jesus convida, apresenta Deus como princípio de vida e de amor que se comunica ao humano, e a este como destinado a assemelhar-se cada vez mais a Deus, seu Pai. Nesta perspectiva, Deus não se impõe ao humano de fora para dentro, como era o caso do Deus da lei, mas fortalece o humano interiormente.

O desígnio de Deus não se expressa mais com mandamentos externos, alheios ao próprio humanidade, e sim exaltando a aspiração congênita do humano pela sua própria plenitude, cuja meta é a perfeita semelhança com o Pai, que assimila a condição divina de Jesus, o Filho. O desígnio de Deus coincide assim com o anseio profundo do ser humano. Como conseqüência, para Jesus o pecado consiste em impedir, seja lá de que maneira for, a realização do desígnio divino: a plenitude humana.

Essa plenitude humana é bem caracterizada na fala de Jesus, quando esse elenca todas dimensões do ser humano que devem estar voltadas para o amor a Deus. Ao falar do coração, Jesus se refere a pessoa, ao ego que pensa, sente e deseja, com especial atenção à responsabilidade dele diante de Deus. A alma, aqui falada por Jesus, se refere à totalidade da existência e da vida humana, com a qual se preocupa e há cuidado constante, como ele expressa em Mt. 6.25.

Também, Jesus chama o ser humano ao conhecimento de Deus na totalidade de seu entendimento, que também pode ser traduzido por inteligência. Cabe frisar que inteligência não se resume apenas ao total de conhecimentos que uma pessoa adquiriu, mas também a capacidade de aprender e de adaptar-se satisfatoriamente a novas situações e ao ambiente em geral . E amar de toda a força implica em utilizar-se de todo o poder, de todas as energias, sejam essas físicas ou mentais, para se chegar a Deus, independentes dos obstáculos que se opõem a tal objetivo.

Desse modo, Jesus transforma a concepção de pecado: não é mais a transgressão a lei, mas tudo aquilo que reprime a vida é pecado. Jesus comunica sua experiência de vida e revela ao ser humano o valor supremo da mesma, estimulando-o a desenvolver ao máximo sua capacidade de amar.

A experiência do amor se concretiza na mudança da relação com Deus, consigo mesmo e com o mundo. A nova relação de Deus como Pai confere, além da liberdade, a segurança interior, visto que o Pai é puro amor e está sempre a favor do ser humano.

A nova relação consigo mesmo decorre da aceitação da própria realidade pelo ser humano e na ampliação de seu horizonte existencial, que o define como Filho.

A nova relação com os outros se baseia no fato deles também ser alvo do amor do Pai.

continua

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posted by rafael at 22:35 | Permalink | 3 teste tua chave
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11.9.07
amar é também estar em conflito
"As pessoas acham que amar é simples, mas que encontrar o objeto apropriado para amar - ou ser amado por ele - é díficil". Essa constatação foi feita por Erich Fromm e concordo com ele. Penso que o desafio não está na busca por alguém, mas no ato amar.

Diferente do desejado por nós, o amor não é um rio de águas mansas. Ao contrário, está mais próximo de um rio de corredeiras violentas. Pensamos o amor como um estado de completa paz e serenidade. E até acredito que o seja. Contudo, é uma paz sempre tensa e uma serenidade ameaçada pela intranqüilidade. Amar é como uma sinfônia: a harmonia surge do conflito entre as notas. Amar é também estar em conflito.

Conflito é ausência de amor, mas amor não implica na ausência do conflito. Mesmo porque o amor não pressupõe um ambiente somente fraterno. Também pressupõe o não- amor, ou seja, o conflito.

Amor pressupõe a existência do conflito, mas diferencia-se desse por tomar a iniciativa de superá-lo. A iniciativa acontece no movimento de sair "de" em direção "a". É deixar o que é conhecido para caminhar em direção ao desconhecido. É partir da segurança para a insegurança.

Amar é um movimento de abertura: sair do estado em que se tem controle da situação devido ao conhecimento desta, para ir ao conflito, um estado de controvérsias onde não há respostas prontas, e sim a incerteza e o desconhecido. É desejar ser aceito estando cônscio da possibilidade da rejeição. É uma esperança encharcada de incerteza.

Amar é perceber o outro que existe fora de si e permitir que a sua história invada a minha "privacidade histórica". Ocorre o conflito das histórias particulares. E ocorre o amor quando há o interesse de superar as diferenças históricas, não a partir de sua eliminação, mas na criação de espaços onde elas possam conviver harmoniosamente, inaugurando "uma" e "nova" história.

Amar é compartilhar o palco da vida. "O espaço de vida é algo que as pessoas se concedem mutuamente, quando se abrem um ao outro em amor e permitem que um participe da vida do outro. Amar também significa: conceder tempo e ceder espaço e ter paciência uns com os outros, porque um está interessado no outro."
(Jürgen Moltmann, A fonte da vida, Loyola, 2002)

Amar é também estar em conflito, pois é transcendência e imanência: é sair de si doando-se a outro e permitir que o outro, com sua vida e sofrimento, invada a mim.



Erich Fromm. A arte de amar, Martins Fontes, 2000.

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posted by rafael at 00:01 | Permalink | 15 teste tua chave
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7.9.07
....mas a palavra vivifica







Não [mais] direi que te esqueci.
As palavras vivificam-te.
Por isso matar-te-ei;
calando,
sofrendo,

esquecendo.



imagem: Portrait of a man with padlock on mouth - Tim Jonke
www.gettyimages.com

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posted by rafael at 01:55 | Permalink | 15 teste tua chave
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