26.3.08
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Peter Sloterdijk, na obra “Regras para o Parque humano” nascido a partir de uma palestra proferida em 1999 e na qual dialoga com e responde a “Carta sobre o Humanismo” de Martin Heidegger, procura pensar o ponto obscuro do humanismo, que na sua tese trata-se da produção e domesticação do homem. Sloterdijk não fala de antropologia, e sim de antropotécnica. A tese central da obra é a definição do homem como um produto. Para o autor, desde Platão essa é uma idéia presente na história do pensamento filosófico.

Retomando alguns pontos do diagnóstico feito por Nietzsche do humanismo até então em voga, Sloterdijk considera que a idéia de humanidade não se restringe as relações fraternas entre os homens, mas que também traz implicitamente, e que nos últimos tempos vem se desvelando, a idéia de poder do homem sobre o homem. Nesse ponto torna-se claro o humanismo como uma antropotécnica: o homem é um animal produzido e domesticado por outro homem. E o autor encontra esse projeto já delineado em Platão, que em sua opinião teria desenvolvido um preâmbulo de uma “antropotécnica política”, projeto esse que iria para além da domesticação do humano, visando a criação mais próxima possível do homem ideal.

Lendo essa obra, recordei de um comentário deixado no texto "A infância perdida", do Fábio Centenaro. Reproduzo o comentário logo abaixo.

Concordo com a análise da atual conjuntura moral e social na qual estamos mergulhados. Mas não sei se as crianças foram em algum tempo tratadas como crianças. Tenho comigo que elas sempre foram tidas como mini-adultos e são poucas aquelas que realmente tiveram uma infância dedicada as brincadeiras e a “inocência”.

Basta olharmos a história e ver como o trabalho infantil sempre foi utilizado, e ainda hoje temos esse problema. Cresci no interior do país e com crianças que desde cedo tiveram que trabalhar no campo, plantando, colhendo, tirando leite, ajudando os pais no seu pequeno comércio e indo a escola. E aquelas que tinham uma condição de vida mais abastada, eram colocadas em cursos 'disso' e 'daquilo' porque “é preciso se preparar desde cedo para quando crescer ganhar bem”.

Talvez eu esteja sendo ousado em dizer isso, mas creio que vivemos uma infantilidade generalizada: nós adultos queremos nos entregar a todos os desejos como crianças que querem um doce. E assim acabamos agindo como crianças que ainda não tem idéia de que o mundo não gira em torno de nós. Disso, decorre o fato de nós adultos olharmos as crianças como “mini-nós”, e fazemos com que elas tenham uma visão equivocada de que os adultos são felizes.

Por fim, me parece uma quimera pensar que um dias elas foram tratadas como crianças. Penso que elas sempre foram vistas como projeto de adultos, pois “elas são o amanhã”.

De minha parte, tive a sorte de ser criança [seja lá o que isso signifique], e desejo nunca esquecer disso…

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posted by rafael at 00:15 | Permalink |


2 Comments:


At 26 março, 2008 15:29, Blogger Leticia

Definitivamente há muito sendo projeto sobre os pequenos , creio que mais do que suas tenras idades podem administrar.
Vejo isso nos meus alunos , vejo nos meus irmãos.

Fui criança , realmente?
Mais livre e inocente que as atuais com certeza mas como deveria ser não.

A questão pra mim , não é que já foi vivido e sim o que faremos tendo em vista o que vivemos e o que já sabemos.

Cmo serão tratados nossos filhos?

 

At 26 março, 2008 21:23, OpenID poetriz

Confesso que eu tive de "crescer" antes do que queria.
E pior é hoje, não poucas vezes, alguém dizer que eu tenho cara de sapeca e perguntar se eu era muito espevitada quando criança.
Mal sabem que eu praticamente já nasci adulta...

Bjs!

 


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