24.11.08
sem título #1
o fragmento;
parte
da tua sempre partida.

a irrazão;
loucura
da tua constante inconstância.

o amor;
fraqueza
da tua rompante paixão.

sou fragmento
sou loucura
sou amor

a irrazão

tua sempre
partida;
constante
rompante
na inconstante
paixão.

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posted by rafael at 10:30 | Permalink | 3 teste tua chave
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11.4.08
sob a luz da lua

Indo ao quarto e um clarão através da janela. Lua alva num céu negramente límpido. Largado, peso morto debruçado por sobre um vão de janela que fica para contemplar a beleza indizível de fora quando meus desejos de dentro colocam a tua presença.

Pensamentos in[porque não quis]evitavelmente deixados em você. Tê-la em braços e lua desnuda por libidos olhares. Desejos da luz clarear tua face. Marcas de traços em sombras e linhas claras do contorno do teu rosto. Lua espelhada nos teus olhos, reflexo nos meus. Quereres de contemplar o corpo em nú vestido da branca luz.

Você sobre peito e olhos sob a lua. Desgosto de abrir-los para com gosto beijar-te a comissura labial. Esquecer de lembrar tudo, violado por sabor da tua boca, afogar em salivas e escravizado na língua. Achado perdido em abraços, gozar o sopro da vida nos suspiros.

Teu corpo nú, pálido como lua, luz em densa leve noite. Querença de posse em fogo na paixão; minúcias do corpo em pressa de ficar para sempre em descoberta - você em perfumes e gostos. Com beijos e línguas úmidas, réu de prazeres por ser vítima de desejos.

Quis te amar sob a luz da lua, e, num clarão através da janela, debruçado, largado peso morto num vão que fica, ia ao quarto, quando meus desejos de fora me colocaram dentro da tua presença.

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posted by rafael at 10:15 | Permalink | 6 teste tua chave
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4.4.08
primeiro amor - beckett (I)
Epitáfio:
"Aqui jaz quem daqui tanto escapou
Que só agora não escape mais"

"Mas aos vinte e cinco anos ele ainda está sujeito à ereção, o homem moderno, fisicamente também, de vez em quando, é o quinhão de cada um, nem eu estava imune, se é que aquilo pode ser chamado de ereção. Ela percebeu, naturalmente, as mulheres farejam um falo no ar a mais de dez quilômetros e se perguntam, Como é que aquele ali me descobriu? Não somos mais nós mesmos, nessas condições, e é penoso não ser mais você mesmo, ainda mais penoso do que sê-lo, apesar do que dizem. Pois quando o somos, sabemos o que temos que fazer para sê-lo menos, ao passo que quando não o somos mais somos qualquer um, não há mais como nos apagar. O que se chama amor é o exílio, com um cartão-postal da terra natal de vez em quando, foi esse meu sentimento naquela noite."

"É incrível como as pessoas repetem o que acabamos de lhes dizer, como se corressem o risco de ir para a fogueira ao acreditar em seus próprios ouvidos. Disse para ela vir de vez em quando. Eu conhecia mal as mulheres, naquela época. Ainda as conheço mal, aliás. Os homens também. Os animais também. O que conheço menos mal são minhas dores. Penso nelas todas, todos os dias, é rápido, o pensamento vai tão depressa, mas elas não vêm todas do pensamento. Sim, há momentos, principalmente à tarde, em que me sinto sincretista, à maneira de Reinhold. Que equilíbrio. Aliás, conheço mal também minhas dores. Isso deve ser porque não sou apenas dor. Aí está a astúcia. Então me afasto, até o espanto, até a admiração, como de um outro planeta. Raramente, mas é o bastante. Nada cretina, a vida. Ser apenas dor, como simplificaria as coisas! Ser todo-dolente! Mas isso seria concorrência, e desleal. Eu lhes contaria assim mesmo, um dia, se me lembrar, e tomara que consiga, minhas estranhas dores, em detalhes, e distiguindo-as bem, para maior clareza. Falarei das dores do entendimento, as do coração ou afetivas, as da alma (muito simpáticas, as da alma), e depois as do corpo, primeiro as internas ou ocultas, depois as da superfície, começando pelos cabelos e descendo metodicamente e sem pressa até os pés, abrigo dos calos, cãibras, joanetes, unhas encravadas, frieiras, pés-de-atleta e outras esquisitices. E àqueles que forem gentis o bastante para me escutar contarei na mesma ocasião, de acordo com um sistema cujo autor não me recordo, os instantes que, sem estar drogado, nem bêbado, nem em êxtase, não se sente nada."

Samuel Beckett. Primeiro Amor. Cosac Naify, 2004.

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posted by rafael at 09:00 | Permalink | 2 teste tua chave
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3.4.08
do corpo reescrito
escrevo muito;

pouco.
falta
você.

[meu] conforto.


descrevo pouco.
muito
reconforto.


perma[usê]ncia:


re-d-escrevo
tudo.
desconforto
você.

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posted by rafael at 09:05 | Permalink | 6 teste tua chave
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2.4.08
da completude
te amo
como quem nada quer
pois tenho tudo
querendo-te
amar.

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posted by rafael at 11:40 | Permalink | 4 teste tua chave
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22.2.08
qualquer maneira de amor valerá
amar
qualquer maneira
valerá
qualquer sofrer
toda falta
valerá
a dor

amar
valerá.

***********************************************

Paula e Bebeto
música: Milton Nascimento e Caetano Veloso
intérprete: Milton Nascimento
Albúm: Minas


ê vida que amor brincadeira, à vera
eles amaram de qualquer maneira, à vera
qualquer forma de amor vale a pena
qualquer maneira de amor vale amar

pena que pena que coisa bonita, diga
qual a palavra que nunca foi dita, diga
qualquer maneira de amor vale aquela
qualquer maneira de amor vale amar
qualquer maneira de amor vale a pena
qualquer maneira de amor valerá

eles partiram por outros assuntos, muitos
mas no meu canto estarão sempre juntos, muito
qualquer maneira que eu cante êsse canto
qualquer maneira me vale cantar

eles se amam de qualquer maneira, à vera
eles se amam é pra vida inteira, à vera
qualquer maneira de amor vale o canto
qualquer maneira me vale cantar
qualquer maneira de amor vale aquela
qualquer maneira de amor valerá

pena que pena que coisa bonita, diga
qual a palavra que nunca foi dita, diga
qualquer maneira de amor vale o canto
qualquer maneira me vale cantar
qualquer maneira de amor vale aquela
qualquer maneira de amor valerá

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posted by rafael at 00:35 | Permalink | 1 teste tua chave
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13.2.08
das perdas


Quando acaba, recomeça?


*********


Diga "não te amo"
que aceito, ainda de mal grado;

Mas não diga "não me ame"

pois não suporto amor guardado.

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posted by rafael at 20:29 | Permalink | 8 teste tua chave
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14.1.08
despedidas
Tua ida
leva a minha

vida

finda.



Volta
vida finda,
minha
ida.

Finda a ida,
tua
minha

....................................vida


fica.

*********************************************************************
Autocrítica:

Relendo depois de algumas horas, achei que a disposição das palavras tornou o texto muito complicado (para não dizer ruim). Segue abaixo o primeiro rascunho.

Tua ida
leva a vida
já pouca
já finda.

Tu voltas?
vida
pouca
finda....

Tu, vida,
finda a ida.
Fica!?

Aproveitando o ensejo, estou pensando numa disposição mais simples, contudo inteligível, como se segue:

Tua ida
leva a minha

vida

...................finda.


Volta
vida finda,
minha
ida.

Finda a ida,
tua
minha

vida
fica.

Ah, pensando bem, desculpe o transtorno! Vou deixar a preguiça de lado e trabalhar melhor o texto.

reatulizado às 22:03

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posted by rafael at 17:45 | Permalink | 4 teste tua chave
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10.1.08
amar: arte de se revelar
Há uma velha canção árabe que começa assim: "Só Deus e eu mesmo podemos saber o que se passa em meu coração". Hoje, depois de ler tudo o que você tem me escrito, eu poderia acrescentar: "Só Deus, eu e Mary podemos saber o que se passa no meu coração".

Eu gostaria de abrir meu peito, de tira-lo dali, e carrega-lo em minhas mãos, para que todos pudessem ver. Porque não há desejo maior em um homem que revelar-se a si mesmo, ser compreendido por seu próximo; todos nós queremos que a luz que colocamos atrás da porta, seja posta no meio da sala, na frente de todos.

O primeiro poeta desse mundo deve ter sofrido muito, quando deixou de lado seu arco e sua flecha, e tentou explicar a seus amigos do que havia sentido diante de um por do sol. É bem possível que estes amigos tenham ironizado o que ele dizia, mas ele o fez mesmo assim, porque a verdadeira Arte exige que o artista tente mostrar-se. Ninguém pode conviver sozinho com a beleza que é capaz de perceber.

E quanto a nós dois, que buscamos o Absoluto, e que construímos um jardim usando a nossa própria solidão, a Vida nos deixou uma imensa paixão para aproveitar cada instante, com toda a intensidade.




Carta de Kahlil Gibran, escrita à Mary Haskell datada de 10 de Novembro de 1911.
Kahlil Gibran. As cartas de amor do profeta. baixe aqui

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posted by rafael at 02:15 | Permalink | 3 teste tua chave
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6.1.08
cultivar amizades
Penso não ser poucos esses que tem dificuldade em demonstrar afeto pelas pessoas. De fato, acredito estar ocorrendo uma crise de carência afetiva que se manifesta nos extremos de nos tornarmos pessoas gélidas e resabiadas ou de nos entregarmos facilmente a qualquer pessoa. Ambas atitudes são perigosas e perniciosas. Ao nos fecharmos, deixamos de experimentar o afeto, já que o prazer desse não está apenas no seu recebimento, mas também, e principalmente, em dá-lo. Quando nos entregamos muito facilmente àquele que nos cativa com afetos, o dano se encontra quando nos tornamos escravos desses afetos e assim ficarmos a mercê de um sentimento muitas vezes egoísta e que não nos eleva a experiência do amor.

Não podemos nos culpar por algumas amizades não mais cultivadas e pensarmos que isso seja consequência da nossa falta de afeto simplesmente. A vida é feita de histórias individuais onde cada qual escreve um diferente roteiro. Em algum momento mudamos e também nossos amigos e amigas. Por vezes, essas mudanças aproximam ainda mais. Porém, bem sabemos que elas mais distanciam, pois não mudamos da mesma forma e para a mesma direção. Tenho muitas amizades que hoje encontram-se apenas nas lembranças, mas nem por isso deixam de ser amizades e pertecentes a um passado irrecuperável. A verdade é outra: essas amizades ainda são presentes justamente por nos acompanharem ainda hoje em forma de lembranças e por ser responsáveis por quem somos nesse exato segundo e em todos àqueles porvir.

Por isso, antes do nos culparmos ou pensarmos que temos problemas para demonstrar afetividade, vale a pena o esforço de amar. E o que seria amar? Ao meu ver é viver de tal modo que sejamos sempre presente na vida das pessoas, mesmo ficando no seu passado. É marcar elas de modo que sintam a necessidade de ser afetiva com as demais pessoas. Somente perdemos amizades quando a mágoa preenche o espaço infinito que separa o "eu" do "tu". Mas enquanto esse espaço continuar desocupado, sempre há a chance de nele ser construida uma amizade que não se perde no tempo, pois quando existe amor, tudo é presente.

E as sementes de uma amizade sincera está plantada entre nós.


E-mail em resposta a uma querida leitora que compartilhou de si num comentário ao texto "É a verdade mais pura, eu não consigo amar".

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posted by rafael at 17:58 | Permalink | 12 teste tua chave
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19.12.07
ser forte para tomar as dores
tuas em minhas
todas em nossas
mesmo tu temendo compartilhar

ter fé para deslocar os montes
tirá-los do teu caminho
aplainar nossas passagens
mesmo tu temendo atravessar

quero ser um contigo
deixe tu assim ser comigo
nas tuas dores
em nossos montes
por misera fé
mesmo tu temendo eu te amar

dá-me tua cruz
deixa nela eu estar
com indefeso peito
para em abertos braços

teus montes e dores
por ti superar

[mesmo eu temendo tu não me amar]

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posted by rafael at 01:50 | Permalink | 12 teste tua chave
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30.11.07
falta - necessidade de você
a falta
lancinante
aflige.
reduntantemente sofrega
e abismal,
testemunha:
você está em mim.

Ausência -
tua presença.

a falta.
necessidade
de você
e sempre
enquanto saltar
o abismo.

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posted by rafael at 00:16 | Permalink | 4 teste tua chave
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13.10.07
amor futuro no passado presente

Quem amei
[pois amo]
e amarei
Quem desejei
[pois desejo]
e desejarei
Quem busquei
[pois busco]
e buscarei
pois desejo
quem amei


inspirado em trecho de "Pai e Mãe" de Gilberto Gil

imagem: Man Catching Heart Shapes With a Net - Mandy Pritty
www.gettyimages.com

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posted by rafael at 12:23 | Permalink | 6 teste tua chave
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1.10.07
a cobrança do amor
O amor, na sua dose de racionalidade, leva em conta os limites existentes e não cobra nada além deles pois sabe que isso gera sofrimento.

Um "amor" que cobra, não ama o outro, mas ama uma idéia de outro, e cobra do outro que ele satisfaça esse ideal.

Ora, amor é aceitação antes de tudo.

Ao meu ver, a única cobrança que amor faz é que o outro se torne cada vez mais capaz de amar do mesmo modo em que é capaz de aceitar o amor de outros.


Trecho de um dos tantos excepcionais e engrandecedores diálogos tido com a Priscilla.

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posted by rafael at 02:15 | Permalink | 5 teste tua chave
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26.9.07
a salvação está no outro (III)
Se Deus é amor, só pode ser verdadeiramente conhecido através da experiência do amor. Todo amor procede de Deus de algum modo, e portanto, todo amor revela Deus de algum modo (1Jo 4.7). A experiência pode ser instantânea ou paulatina, viva ou apenas perceptível, mas sua realidade e sua autenticidade se mede sempre pela mudança que provoca em nossa relação com os outros (1Jo. 3.14).

É por isso que Jesus cita o amor ao próximo como o segundo grande mandamento. Se no primeiro grande mandamento Jesus resume os três primeiros preceitos do decálogo, nesse segundo Jesus inclui o restante. Na passagem de Mc. 12.28.34, Jesus fala pela segunda vez sobre o grande mandamento. A primeira no livro do evangelista, ocorre no cap. 10.17-19. E vale destacar a diferença.

Em Mc. 10.27-29 Jesus cita somente os mandamentos éticos contidos no decálogo. A condição é, pois, não causar prejuízo a ninguém, manifestação mínima do amor; ela corresponde à regra de conduta proposta pelos doutores judeus como compêndio da lei, que interpretava o mandamento do amor ao próximo de modo puramente negativo: “não faças ao outro o que não quererais que façam a ti”. Aqui, a ênfase está no respeito ao próximo, que mostra já certa responsabilidade pelo bem-estar; a pessoa não deve contribuir para o aumento da injustiça no mundo.

Por sua vez, em Mc. 12.38-34 Jesus acrescenta o mandamento resumo de Lv. 19.18: “Ama a teu próximo como a ti mesmo”. A lei não é mais formulada aqui de forma negativa, como faziam os doutores, mas de forma positiva. Essa forma positiva deve ser interpretada em sentido ativo, na atividade em favor do próximo; atividade que não põe em perigo o próprio bem-estar.

Frei Betto, sacerdote católico ao comentar sobre a proibição feita por Deus sobre a confecção de imagens para a adoração diz:

"Os profetas, ao condenarem essa tentação do povo (de construir imagens), queriam dizer algo muito simples: 'Se querem louvar e servir a Javé, façam-no na única imagem Dele que Ele nos concedeu, que é o próximo. É muito cômodo adora-lo na montanha, no bezerro ou no carvalho, difícil é serví-lo a adorá-lo no próximo, a imagem e semelhança de Javé'. Louvar a Javé é louvar a criatura, criação do Senhor. Reconhecer essa criação é, como dizia Jesus, fazer a vontade do Pai, que é a prática da justiça, e não a louvação como abstração, coisa em si, que prescinda a mediatização do próximo."

A insegurança da salvação, conseqüência da idéia de Deus ambíguo, atormenta o ser humano e paralisa sua ação. Se ele não está seguro do amor de Deus, tem, por conseguinte, insegurança de sua salvação futura e concentra seu esforço e sua energia na solução deste problema crucial. Vive angustiado, dependente de si mesmo e preocupado com seu destino. Não tem tempo para dedicar-se aos outros.

Quando Jesus assegura ao ser humano que Deus não é problema e que pode contar sempre com seu amor, descentraliza a pessoa de si mesma e a liberta para que possa dedicar suas energias a amar aos outros.

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posted by rafael at 00:30 | Permalink | 4 teste tua chave
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24.9.07
a salvação está no outro (II)
A ruptura da visão de Deus como um soberano que impões sua vontade aos súditos é feita mediante a instauração de uma nova visão da relação do humano com Deus: não mais de soberano-súdito, mas de Pai e filho. A nova relação Pai-Filho entre Deus e o humano a que Jesus convida, apresenta Deus como princípio de vida e de amor que se comunica ao humano, e a este como destinado a assemelhar-se cada vez mais a Deus, seu Pai. Nesta perspectiva, Deus não se impõe ao humano de fora para dentro, como era o caso do Deus da lei, mas fortalece o humano interiormente.

O desígnio de Deus não se expressa mais com mandamentos externos, alheios ao próprio humanidade, e sim exaltando a aspiração congênita do humano pela sua própria plenitude, cuja meta é a perfeita semelhança com o Pai, que assimila a condição divina de Jesus, o Filho. O desígnio de Deus coincide assim com o anseio profundo do ser humano. Como conseqüência, para Jesus o pecado consiste em impedir, seja lá de que maneira for, a realização do desígnio divino: a plenitude humana.

Essa plenitude humana é bem caracterizada na fala de Jesus, quando esse elenca todas dimensões do ser humano que devem estar voltadas para o amor a Deus. Ao falar do coração, Jesus se refere a pessoa, ao ego que pensa, sente e deseja, com especial atenção à responsabilidade dele diante de Deus. A alma, aqui falada por Jesus, se refere à totalidade da existência e da vida humana, com a qual se preocupa e há cuidado constante, como ele expressa em Mt. 6.25.

Também, Jesus chama o ser humano ao conhecimento de Deus na totalidade de seu entendimento, que também pode ser traduzido por inteligência. Cabe frisar que inteligência não se resume apenas ao total de conhecimentos que uma pessoa adquiriu, mas também a capacidade de aprender e de adaptar-se satisfatoriamente a novas situações e ao ambiente em geral . E amar de toda a força implica em utilizar-se de todo o poder, de todas as energias, sejam essas físicas ou mentais, para se chegar a Deus, independentes dos obstáculos que se opõem a tal objetivo.

Desse modo, Jesus transforma a concepção de pecado: não é mais a transgressão a lei, mas tudo aquilo que reprime a vida é pecado. Jesus comunica sua experiência de vida e revela ao ser humano o valor supremo da mesma, estimulando-o a desenvolver ao máximo sua capacidade de amar.

A experiência do amor se concretiza na mudança da relação com Deus, consigo mesmo e com o mundo. A nova relação de Deus como Pai confere, além da liberdade, a segurança interior, visto que o Pai é puro amor e está sempre a favor do ser humano.

A nova relação consigo mesmo decorre da aceitação da própria realidade pelo ser humano e na ampliação de seu horizonte existencial, que o define como Filho.

A nova relação com os outros se baseia no fato deles também ser alvo do amor do Pai.

continua

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posted by rafael at 22:35 | Permalink | 3 teste tua chave
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23.9.07
a salvação está no outro (I)
Uma longa meditação sobre o Evangelho de Marcos 12:28-34, dividida em três grandes partes.

Na tradição judaica, o relato da criação afirma a relação de “imagem e semelhança” (Gn. 1.26) entre o humano e Deus. Esta afirmação atenuava o conceito de transcendência divina. Deus não era o totalmente distante nem o absolutamente desconhecido; de certa maneira podia ser conhecido através do próprio humano.

A idéia da imagem e semelhança que aproximava Deus do humano e dignificava este foi paulatinamente esquecida. O judaísmo insistiu sempre na transcendência divina, isto é, na distância entre Deus e o humano. Este foi considerado sempre mau, indigno e um enorme pessimismo sobre a natureza humana constituía a nota característica e dominante da religião no tempo de Jesus.

A idéia derivante e cristalizada na teologia farisaica era a de um Deus distante e exigente, que olhava com benevolência os que observavam seus inúmeros preceitos e abominava e castigava os que não lhe obedeciam com minuciosa fidelidade. O povo doutrinado por seus dirigentes religiosos conservava a imagem do Deus distante, ciumento, cioso de sua soberania e objeto de temor.

É nessa perspectiva que se dá o encontro entre o escriba, também chamado de mestre da lei, com Jesus. Era o encontro para mais um confronto entre os defensores de Deus e um perturbador da ordem religiosa e social. A intenção do primeiro era revelar para o povo que Jesus não era o mestre que eles tanto aclamavam e que todos os seus ditos estavam indo contra as leis religiosas da época. Fica evidente esse desejo do escriba quando formula sua pergunta para Jesus. A lei, apesar da proibição do decálogo, era o objeto de veneração do alto escalão da religião judaica.

Interessante nessa passagem é a atitude de Jesus frente a pergunta. Em outros momentos de confronto com os doutores da lei, Jesus rebatia a questão com uma outra questão (cf. 11.28-30; 12.14-16). Nessa passagem, Jesus não devolve a pergunta, mas reponde-a, visto que entendia a importância dos mandamentos, ainda mais quando se questionava sobre o principal.

E talvez a palavra “principal” tenha levado a Jesus a responder de pronto. A lei continha o chamado código de santidade ou de pureza em virtude do qual, para manter a relação com Deus, era necessário precaver-se do contato com toda a realidade considerada impura. Desta exigência decorria um sem número de normas para garantir a pureza e de ritos para eliminar a impureza, fazendo com que a lei se tornasse o centro da vida religiosa em detrimento do relacionamento com Deus.

A lei, convertida em centro da vida religiosa, levava a conceber a relação com Deus em termos de obediência e não como entrega filial ou de fidelidade por amor. Deus se transformou no amo ou senhor que inspeciona o procedimento de seus servos. A relação vital com ele passa a ser jurídica e a experiência de Deus cede lugar ao ensinamento de um código.

Em várias passagens, Jesus censura os fariseus por causa do seu legalismo, que contradizia até mesmo as escrituras. Em Mc. 2.26 ele enuncia um princípio: o humano não é escravo do preceito, mas o preceito é dado para servir ao bem do humano. Retomando a concepção de “amaras, pois, o Senhor teu Deus”, Jesus quebra com a visão de Deus como um soberano que, por meio de seus preceitos, impunha sua vontade aos seus súditos. Essa concepção construia um conceito de pecado como transgressão da vontade divina, que sustentava toda a estrutura legalista da época.

E é justamente contra o desvio da concepção relacional com Deus, que Jesus retoma o primeiro mandamento.

continua

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posted by rafael at 01:55 | Permalink | 4 teste tua chave
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18.9.07
desejo imediato de primeiro grau....

abandonar a razão e ser todo libido
estando possuído por uma paixão irracional
tornar-me escravo de lábios com o sabor do pecado
permanecendo perdido num corpo enfeitiçado pelo prazer





(estou precisando de férias!!!! Alguém mora a beira mar??)
imagem:Man and woman passionately kissing - altrendo images
http://www.gettyimages.com

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posted by rafael at 19:24 | Permalink | 12 teste tua chave
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11.9.07
amar é também estar em conflito
"As pessoas acham que amar é simples, mas que encontrar o objeto apropriado para amar - ou ser amado por ele - é díficil". Essa constatação foi feita por Erich Fromm e concordo com ele. Penso que o desafio não está na busca por alguém, mas no ato amar.

Diferente do desejado por nós, o amor não é um rio de águas mansas. Ao contrário, está mais próximo de um rio de corredeiras violentas. Pensamos o amor como um estado de completa paz e serenidade. E até acredito que o seja. Contudo, é uma paz sempre tensa e uma serenidade ameaçada pela intranqüilidade. Amar é como uma sinfônia: a harmonia surge do conflito entre as notas. Amar é também estar em conflito.

Conflito é ausência de amor, mas amor não implica na ausência do conflito. Mesmo porque o amor não pressupõe um ambiente somente fraterno. Também pressupõe o não- amor, ou seja, o conflito.

Amor pressupõe a existência do conflito, mas diferencia-se desse por tomar a iniciativa de superá-lo. A iniciativa acontece no movimento de sair "de" em direção "a". É deixar o que é conhecido para caminhar em direção ao desconhecido. É partir da segurança para a insegurança.

Amar é um movimento de abertura: sair do estado em que se tem controle da situação devido ao conhecimento desta, para ir ao conflito, um estado de controvérsias onde não há respostas prontas, e sim a incerteza e o desconhecido. É desejar ser aceito estando cônscio da possibilidade da rejeição. É uma esperança encharcada de incerteza.

Amar é perceber o outro que existe fora de si e permitir que a sua história invada a minha "privacidade histórica". Ocorre o conflito das histórias particulares. E ocorre o amor quando há o interesse de superar as diferenças históricas, não a partir de sua eliminação, mas na criação de espaços onde elas possam conviver harmoniosamente, inaugurando "uma" e "nova" história.

Amar é compartilhar o palco da vida. "O espaço de vida é algo que as pessoas se concedem mutuamente, quando se abrem um ao outro em amor e permitem que um participe da vida do outro. Amar também significa: conceder tempo e ceder espaço e ter paciência uns com os outros, porque um está interessado no outro."
(Jürgen Moltmann, A fonte da vida, Loyola, 2002)

Amar é também estar em conflito, pois é transcendência e imanência: é sair de si doando-se a outro e permitir que o outro, com sua vida e sofrimento, invada a mim.



Erich Fromm. A arte de amar, Martins Fontes, 2000.

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posted by rafael at 00:01 | Permalink | 15 teste tua chave
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27.8.07
bem me quer, mal me quer...
















A flor sente dor
ao perder suas pétalas
em nossos jogos de amor?

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posted by rafael at 11:56 | Permalink | 14 teste tua chave
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