26.9.07
a salvação está no outro (III)
Se Deus é amor, só pode ser verdadeiramente conhecido através da experiência do amor. Todo amor procede de Deus de algum modo, e portanto, todo amor revela Deus de algum modo (1Jo 4.7). A experiência pode ser instantânea ou paulatina, viva ou apenas perceptível, mas sua realidade e sua autenticidade se mede sempre pela mudança que provoca em nossa relação com os outros (1Jo. 3.14).

É por isso que Jesus cita o amor ao próximo como o segundo grande mandamento. Se no primeiro grande mandamento Jesus resume os três primeiros preceitos do decálogo, nesse segundo Jesus inclui o restante. Na passagem de Mc. 12.28.34, Jesus fala pela segunda vez sobre o grande mandamento. A primeira no livro do evangelista, ocorre no cap. 10.17-19. E vale destacar a diferença.

Em Mc. 10.27-29 Jesus cita somente os mandamentos éticos contidos no decálogo. A condição é, pois, não causar prejuízo a ninguém, manifestação mínima do amor; ela corresponde à regra de conduta proposta pelos doutores judeus como compêndio da lei, que interpretava o mandamento do amor ao próximo de modo puramente negativo: “não faças ao outro o que não quererais que façam a ti”. Aqui, a ênfase está no respeito ao próximo, que mostra já certa responsabilidade pelo bem-estar; a pessoa não deve contribuir para o aumento da injustiça no mundo.

Por sua vez, em Mc. 12.38-34 Jesus acrescenta o mandamento resumo de Lv. 19.18: “Ama a teu próximo como a ti mesmo”. A lei não é mais formulada aqui de forma negativa, como faziam os doutores, mas de forma positiva. Essa forma positiva deve ser interpretada em sentido ativo, na atividade em favor do próximo; atividade que não põe em perigo o próprio bem-estar.

Frei Betto, sacerdote católico ao comentar sobre a proibição feita por Deus sobre a confecção de imagens para a adoração diz:

"Os profetas, ao condenarem essa tentação do povo (de construir imagens), queriam dizer algo muito simples: 'Se querem louvar e servir a Javé, façam-no na única imagem Dele que Ele nos concedeu, que é o próximo. É muito cômodo adora-lo na montanha, no bezerro ou no carvalho, difícil é serví-lo a adorá-lo no próximo, a imagem e semelhança de Javé'. Louvar a Javé é louvar a criatura, criação do Senhor. Reconhecer essa criação é, como dizia Jesus, fazer a vontade do Pai, que é a prática da justiça, e não a louvação como abstração, coisa em si, que prescinda a mediatização do próximo."

A insegurança da salvação, conseqüência da idéia de Deus ambíguo, atormenta o ser humano e paralisa sua ação. Se ele não está seguro do amor de Deus, tem, por conseguinte, insegurança de sua salvação futura e concentra seu esforço e sua energia na solução deste problema crucial. Vive angustiado, dependente de si mesmo e preocupado com seu destino. Não tem tempo para dedicar-se aos outros.

Quando Jesus assegura ao ser humano que Deus não é problema e que pode contar sempre com seu amor, descentraliza a pessoa de si mesma e a liberta para que possa dedicar suas energias a amar aos outros.

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posted by rafael at 00:30 | Permalink |


4 Comments:


At 26 setembro, 2007 08:34, Anonymous Anônimo

Olá pitéu!
Passei pra ver como andam seus artigos...

Eu ADORO polemizar mas desta vez ficarei calada e phynna! Sentada de pernas cruzadas, tomando um Hi-Fi, óculos prada pra ninguem perceber para onde olho! Apenas observando as opiniões alheias!

E vou ficar sentadinha pois este salto, ninguem merece! AFE!

 

At 26 setembro, 2007 16:45, Blogger rafael

Lady
Está ótimo saber que você está sentando assistindo tudo. Mas por outro lado, por saber disso não sei se me concentrarei nas discussões, pois ficarei olhando pra um ponto fixo.
rsrs
bjão

 

At 26 setembro, 2007 18:18, Anonymous Anônimo

Há pouco pontos diferentes. A maneira como divide os mandamentos:

3 por 7, eu aceito mais a idéia de
4 por 6.

Pois os 4 primeiro se referem ao Deus criador, e os outros 6 refere-se as atividades humanas... Isso é compreensivo.

Para você, o terceiro mandamento, é Guardar Domingos e dias santos, e baseado em Exodo 20 para mim, esse mandamento não existe, porém isto é detalhe denominacional e discussão de grupos religiosos.

Quanto a salvação, já me acomodei. Quanto ao próximo... vou seguindo aquela outra regra aurea:

"amai vosso inimigos e orem por quem vos persegue."

 

At 26 setembro, 2007 23:13, Blogger rafael

Adão
Quanto a divisão, nada a comentar visto que é escolha denominacional, e isso não acarreta em questões teológicas relevantes ou problemáticas.

A minha questão fica em relação a guardar um dia santo, seja o sábado, domingo ou qualquer outro.

Me parece muito claro o conceito do sabath no antigo testamento, como um princípio de adoração a Deus, e que está presente também em Exodo 20. Claro que não defendo uma concepção legalista como faziam os fariseus e como fazem algumas denominações hoje, tornando a pessoa escrava da lei. Contudo o princípio contido no conceito do sabath é muito caro na bíblia.

Mas por favor, esclareça melhor para mim seu ponto.
abraços

 


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