2.11.06
crer num grande amor
Há um ano aproximadamente, quanto eu ainda tinha um outro blog, uma leitora perguntou se eu acreditava no amor após ter lido um texto no qual eu mencionava algo sobre isso. Ela argumentava que falar de amor hoje já estava ultrapassado e bastava olhar como a palavra está desgastada e carente de significado para perceber como não faz mais sentido lutar pela causa de amar, ou acreditar na existência de um grande amor.

Depois de passado um ano e algumas horas dessa madrugada perambulando pela casa e rolando na cama - e nem sei se ela continua lendo meus esporádicos textos -, alguma coisa aconteceu na minha cabeça - e eu que estou querendo sair dela - e uma resposta se formou (meio cartesiano esse método, não?!?!).

De certa forma concordo com o problema por ela apresentado em relação ao amor. Certamente a palavra está vazia de significado, ou melhor, está tão cheia de significados que se torna impossível significar alguma coisa. Para quem tem alguma dúvida sobre esse fato, basta passar um dia ouvindo uma rádio especializada em música sertaneja, ou então ficar uma noite zanzando por aí para ver o que as pessoas dizem ser o "amor".

Mas ainda assim eu continuo crendo no amor, apesar dos altos e baixos - ultimamente mais baixos do que altos - pelos quais tenho passado. E creio por dois motivos: 1) o amor é uma espera ativa; 2) o amor ganha significado no corpo.

Penso que a maior parte das pessoas esperam um grande amor, e isso pode ter várias causas: assitir muitos filmes, ler muitas histórias, e acreditar no provérbio "quem espera sempre alcança". Mas vale lembrar que filmes são filmes, histórias são histórias e quem espera demais nunca alcança, ou, pra não ser tão pessimista, alcança tarde demais.

Mas a causa principal está na forma como compreendemos a espera. Geralmente ela é vista "passivamente", isto é, sentar e ver o que acontece. E no final das contas, o que de fato acontece é quem está de pé sempre entra antes e pega assento no ônibus - isso quando não ocorre de dormirmos sentado no ponto e perdê-lo.

Por isso esperar um grande amor exige uma espera ativa. É tipo esperar para entrar na faculdade - a gente espera estudando, ou esperar para entrar no emprego dos sonhos - a gente espera construíndo um currículo, ou esperar para ser magro - a gente espera fazendo regime. Esperar um grande amor é buscar nos transformarmos em pessoas melhores, e fazer o mesmo com quem amamos. Transformar o outro numa pessoa melhor, nos torna pessoas melhores, e esse movimento é o mínimo exigido pelo amor.

E quando procuramos transformarmos uns aos outros damos significado à palavra amor. A grande questão hoje é que se canta amor, se escreve amor, se fala amor, se pensa amor, se sonha amor, mas não se vive amor. Já escrevi a algum tempo sobre existir apenas provas de amor, concordando com a música dos Titãs.

Toda palavra somente tem significado quando ela ganha "carne" em nosso corpo. Que adianta falar de carinho se não nos tocamos? E falar de saudade se não damos notícia? De simpatia se não sorrimos e empatia se não choramos juntos? Nosso corpo é sem sentido por ausência de palavras, nossas palavras sem sentido por ausência de um corpo, e tudo isso torna a vida sem sentido e os sentidos sem vida alguma.

Se creio na existência de um grande amor? Sim, e não apenas de "um grande amor", mas de "vários grandes amores". Porque não estou disposto a esperar sentado por um, mas desejoso em transformar a todos em amantes, e não apenas cantando, recitando ou pensando, mas fazendo do meu corpo um grande texto vivo.

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posted by rafael at 19:18 | Permalink |


5 Comments:


At 02 novembro, 2006 22:06, Blogger Max

Valeu por este post! É desse tipo de esclarecimento que precisamos.

Postei o link do seu blog no meu. Espero que não se importe.

Abraços cara!

 

At 05 novembro, 2006 15:31, Blogger Renata Shizue

"Esperar um grande amor é buscar nos transformarmos em pessoas melhores, e fazer o mesmo com quem amamos. Transformar o outro numa pessoa melhor, nos torna pessoas melhores, e esse movimento é o mínimo exigido pelo amor."

Pode até ser que não tenha compreendido direito, mas essa transformação é direta? Digo direta no sentido de que um busca modificar o outro, imaginando saber o que seria o bem para sua pessoa amada. Não acredito que saibamos de fato o que é melhor para o outro, considerando que essa certeza não acontece nem com nós mesmos..tentamos, ao longo da vida, nos tornarmos melhores, mas o tempo acaba mostrando que algumas das nossas mudanças, e decisões de mudança, nem sempre foram as mais sensatas. Enfim..
Acredito sim, que o amor pode transformar o ser amado. Mas naquilo em que a ação influencia o pensamento do outro. Em linhas gerais, acredito que a forma como demonstramos o nosso amor muda a maneira do outro enxergar as coisas da vida, muda a forma como ele expressa esse amor. Se um pai não demonstra com carinhos o amor que tem pelo filho, mas luta e trabalha para que ele tenha do bom e do melhor, esse filho pode não entender isso como amor, mas como obrigação. Não sei se estou sendo clara, mas parece que essa transformação é, na verdade, uma jogada que mistura sorte e sintonia de comunicação. O importante é preocupar-nos em ser da melhor maneira possível - nisso eu concordo contigo, e esperar que o outro entenda. E claro, às vezes a nossa maneira de amar, ou de demonstrá-lo pode até fazer com que o outro mude, e não pra melhor.

 

At 05 novembro, 2006 17:42, Blogger rafael

Entendo sim a sua questão. Acho que o grande problema está em até que ponto interfirimos na vida de outrem, e se essa interferência é benéfica ou não, e ainda qual é o direito que temos para fazê-la.
Concordo também que mal sabemos o que é bom para nós mesmos, e quando se refere a outrem as coisas pioram. Mas acho que quando você diz "Acredito sim, que o amor pode transformar o ser amado. Mas naquilo em que a ação influencia o pensamento do outro. Em linhas gerais, acredito que a forma como demonstramos o nosso amor muda a maneira do outro enxergar as coisas da vida, muda a forma como ele expressa esse amor", está em acordo com o que sinto sobre transformar o outro.
Veja bem, digo "sinto" porque é justamente o que tem acontecido. A minha cabeça ainda não processou a mensagem enviada pelo meu coração.
adoro você

 

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