27.6.07
cinco encontros inesquecíveis
A Kaká convidou-me para participar de um Meme com a seguinte questão:

Cinco livros que tenham sido referenciais de alguma forma e que ainda estão disponíveis no mercado literário
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Tarefa árdua essa visto serem apenas cinco livros e por eu identificar-me mais com os autores(as) do que propriamente com sua obras. Mas acredito valer o esforço mesmo cometendo algumas injustiças...

Vamos lá!

Demian - Hermann Hesse. Meu escritor favorito. Esse romance narra a história do jovem Emil Sinclair na sua passagem da adolescência para a maturidade. Hesse capta com incrível sensibilidade os conflitos juvenis vivido pela maioria de nós e escreve com tamanha poesia, que foi capaz de influenciar uma geração inteira com essa obra. E ainda influencia muitas outras, sendo eu um exemplo...

Sidarta - Hermann Hesse. Romance narrando a história de Sidarta Gautama, um jovem brâmane que sai ao mundo na busca de um destino para si. Jovem de espírito rebelde e questionador, mas dotado de um profundo sentido de paz e serenidade, que encontra a plenitude dessas palavras ao encontrar a si mesmo.

A insustentável leveza do ser - Milan Kundera. Obra magna de um escritor mestre em ver a vida como uma grande e feliz crise. Nessa obra, Kundera analisa a vida a partir de dois profundos problemas filosóficos: a leveza e o peso; e o eterno retorno. Tudo permeado de muita irreverência e ironia. Leitura difícil? Negativo. Certamente você se identificará com uma das personagens e seus conflitos...

O amor nos tempos do cólera. Gabriel Gárcia Marquez. Nas indicações anteriores cometi injustiças, mas aqui ela é gritante. Fiquei entre "Cem Anos de Solidão" e "O Outono do Patriarca", sem contar outros livros da imensa bibliografia desse gigante da literatura. Mas atrevo a dizer que esse me tocou mais por um simples motivo: é um romance no qual grita-se no mais alto e belo som que o amor não morre com tempo.

Homem algum é uma ilha - Thomas Merton. Monge trapista, Merton é um dos poucos homens que ao meu ver entendeu o real significado da vida espiritual. Densos, filosóficos e extremamente reflexivos, os textos reunidos nessa obra revelam-me a possibilidade de algum dia chegar a ser sábio, vivendo uma vida de paz e serenidade.

Livros, livros!!!. Grandes companheiros, excelentes amantes, misteriosos universos... Convido você a ler outros textos nos quais falo sobre leitura ( 1, 2, 3)

Por fim, como manda a regra do Meme, passo o problema para mais cinco:
Allan;
Erika;
Fabio;
Mariana;
Tiago.

Não deixem de conferi-los!

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posted by rafael at 22:14 | Permalink | 3 teste tua chave
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6.5.07
um amante da leitura
Não recordo se eu li ou comentaram comigo, mas ficou gravado pois achei muito interessante. É a respeito de relacionamentos e dizia-se o seguinte: a atração por alguém se dá em três modos - i) intelectualmente; ii) afetivamente; iii) físicamente. Quando estamos dispostos a dar continuidade, ou até mesmo iniciar um relaciomento, o ideal é encontrarmos um equilíbrio entre cada parte daquelas, pois, ou ficaremos apenas na conversa sem carinho e desejos corporais; ou só no afeto sem conversa e desejos; ou apenas nos desejos corporais, sem conversa e sem afeto.

Mas sobre isso eu falo outra hora. Apenas apresentei tal idéia devido a uma analogia feita durante uma "biritagem" sobre o relacionamento com alguns livros. Falavamos da leitura de livros "pop's" - veja bem, não disse clássicos, mas pop's - sobre até que ponto vale a pena gastarmos a vista lendo-os, quando disseram: "Esses livros são como prostitutas. Servem para prazeres momentâneos. A gente paga, 'dá uma' e depois esquece." De pronto me veio a idéia esboçada acima sobre relacionamentos. E dei-me conta de possuir diferentes modos de relacionar-me com diversos autores.

José Saramago, Gabriel Gárcia Márquez, Thomas Mann são alguns autores com os quais tenho uma admiração intelectual. Logo terminado de ler uma obra, tenho o desejo de reiniciar a leitura da mesma. Por vezes, quando estou em frente da minha biblioteca, fico em dúvida se leio um livro ainda não lido ou se releio aquilo que tenho certeza de ser excelente. Contudo, confesso serem leituras pesadíssimas para mim, e isto se atesta na exaustão na qual me encontro após a leitura desse autores. Obviamente isso não ocorre para com todas as obras. Mas quem leu "O Evangelho Segundo de Jesus Cristo", "O outono do Patriarca", "Doutor Fausto", compreende melhor o que digo. Temos um relacionamento intelectual, pois podemos passar horas conversando e ainda peço bis.

Diferente relacionamento tenho com Rubem Alves, C. S. Lewis, Alberto Caeiro e recentemente com Márcio Américo. Seus romances, crônicas e poesias me cativam. Renovam esperanças, recuperam lembranças, fazem surgir no centro do peito um calor gostoso como se estivessemos sendo acariciados pelo mão de nosso enamoramento. Só fiz referência a eles e perceba como já escrevi num estilo diferente do parágrafo anterior! Acredito não ser preciso dizer mais nada.

Há aqueles que servem apenas para aliviar o stress, passar o tempo, para um prazer momentâneo. São bons apenas naquele momento, mas depois é um para cada canto. Serve como apêndice cultural, ou exercício de leitura dinâmica. Por favor, não estou desmerecendo (muito!) esse tipo de livro, pois como já disse, eles desempenham bem o seu papel no seu tempo. Entre eles se encontra Dan Brown e Sidney Sheldon com suas fórmulas literárias mágicas.

É claro, não estou fazendo uma delimitação rígida sobre o tipo de relacionamento mantido com os autores. De certo modo, todos freqüentam em certa medida os outros níveis de relacionamento. Como exemplo poderia citar Milan Kundera, com quem nutro um relacionamento intelecto-físico-afetivo bastante harmonioso.

Todavia, meu relacionamento mais estável se dá com Hermann Hesse. Como indentifico-me com suas personagens! Principalmente com Emil Sinclair, pseudônimo de Hesse durante a Primeira Guerra Mundial e personagem central do romance "Demian", livro que tenho como irmão. E suas idéias, sua cosmovisão de mundo! Hesse muda meu modo de ver a vida a cada linha, a cada novo conflito narrado, em todas as transformações ocorridas no interior das narrativas. Seu nome faz meus pêlos ouriçarem, causa-me um friozinho na barriga e quando o tenho nas mãos sucumbo frente ao prazer.

Olho para Hesse agora, e deixo meus olhos correrem pela minha biblioteca. Cada autor insita um pedaço do meu ser: cabeça, corpo, coração. Definitivamente sou um amante da leitura. Sinto-me feliz.

para ler outras reflexões sobre leitura clique aqui e aqui.

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posted by rafael at 14:43 | Permalink | 0 teste tua chave
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9.3.07
um leitor ingênuo
Algumas pessoas consideram-me crítico, pois, para determinados assuntos tenho uma opinião aparentemente formada, para outros tenho algum tipo de contribuição a oferecer, e para a maioria ofereço apenas o silêncio. Por sinal, é graças ao silêncio na maioria dos assuntos que essa imagem de pessoa crítica coube como uma luva em mim...

Não me considero crítico, muito pelo contrário, sou até muito ingênuo. Se tenho opinião sobre algo, essa nem é minha, e sim oriunda de alguma leitura. Se fico em silêncio, não é por estar questionando ou desconfiado: é porque realmente não tenho nada a declarar e provavelmente estou acreditando em tudo o que é dito. E se tenho alguma opinião a oferecer, digo-a vacilando por receio de estar dizendo bobagem.

Quando comecei a cursar o ensino superior esta ingenuidade me incomodava. Ouvia os professores sempre opinando sobre algo, discordando dos autores e de outros professores e sempre dando um jeitinho de mostrar para o aluno que esse não sabe nada. Também observava meus colegas sempre opinando sobre músicas, filmes, livros, seja exaltando ou criticando. E eu, não sabia de nada! Todos tinham algum tipo de senso de crítico e eu sempre ouvia e calava. Considerei-me um bobão.

Comecei a achar minhas leituras infrutíferas, improdutivas, visto que nunca tinha nada a acrescentar sobre o lido. Senti-me um papagaio, pois o que apenas fazia era reproduzir as palavras do escritor. Pensei ser um menino ingênuo que sempre acredita nas histórias fantásticas e fantasiosas contadas pelos mais velhos. Odiei minha ingenuidade até ler um ensaio de Emil Sinclair, pseudônimo de Hermann Hesse, intitulado "Sobre a leitura de livros". Nesse texto, Hesse classifica três tipos de leitores.

O primeiro é assim definido
Em primeiro lugar, há o leitor ingênuo (...) Este leitor devora um livro como se fosse uma refeição, é apenas um receptor, ele come e se satura como um garoto se empanturra com um livro sobre índios, ou uma criada com um romance sobre condenssas, ou um estudante com Schopenhauer. Este leitor não se relaciona com o livro como uma pessoa, mas sim como um cavalo com a manjedoura, ou um cavalo com o cocheiro; o livro dirige e o leitor obedece (...) Este leitor assume sem questionar que um livro existe única e exclusivamente para ser lido com fidelidade e atenção, para ser apreciado em todo seu conteúdo ou forma.

Em segundo lugar, Hesse escreve:
Desde que o homem siga sua natureza e não sua formação cultural, ele se torna criança e começa a brincar com as coisas, o pão se transforma numa montanha onde se fura um túnel, a cama numa caverna, num jardim, num campo nevado. O segundo tipo de leitor mostra um pouco desse gênio brincalhão, dessa infantilidade. Este leitor não aprecia nem o conteúdo nem a forma de um livro como seus valores únicos e mais importantes. Ele sabe, como as crianças também sabem, que qualquer coisa pode ter dez, cem significados e sentidos.

E em terceiro
Passemos agora ao terceiro e último grupo. Pelo visto, este é exatamente o contrário do que se poderia chamar de "bom leitor". O terceiro tipo tem tanta personalidade, é tão individualista que se coloca diante da leitura completamente descompromissado. Ele não quer nem se ilustrar e nem se divertir, usa um livro como usaria qualquer outro objeto do mundo, para ele é apenas um ponto de partida e um estímulo. No fundo é indiferente ao que lê. (...) Ele é criança no sentido em que valoriza muito o pensamento associativo, só que conhece o outro também. No momento em que nossa fantasia e capacidade de associação está no auge, já não lemos mais o que está escrito no papel, mas nos deixamos levar pelos estímulos e idéias que nos chegam da leitura.

Hesse não diz qual grupo exercita corretamente a leitura. Para ele cada um de nós se encontra num determinado grupo variando o momento, e depois passamos a outro. Ele apenas chama a atenção para a permanência por muito tempo no terceiro grupo, pois nesse, ao invés de lermos, viajamos para fora do livro.

Depois disso acalentei-me e satisfiz-me com o fato de não ser um crítico. Quer dizer, um crica. Porque para Hesse até mesmo o crítico, quando realmente crítico e não um crica, exerce a leitura.

Gostaria de terminar com o conselho deixado pelo autor na conclusão de seu ensaio:

Qualquer leitor, de qualquer área, pode variar entre os três níveis. Você pode ocupar esse mesmos três níveis com milhares de subníveis na área da arquitetura, da pintura, da zoologia, e da história. Em qualquer área, nesses três níveis em que você é você mesmo, deixará de ser leitor, a obra literária será dissolvida e a história universal também. Mas mesmo assim, sem penetrar conscientemente nesses níveis, você lerá todos os livros, todas as ciências e artes sempre como um aluno lê a gramática.

(Hermann Hesse, O Caderno de Sinclair, Record)

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posted by rafael at 02:35 | Permalink | 0 teste tua chave
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24.2.07
ler: uma disciplina espiritual
Estou revisitando alguns dos meu tutores espirituais. Deixei-os de lado por um tempo tentando traçar sozinho os meus caminhos. Mas não adianta, é preciso render-se ao fato de que, se tratando das coisas da vida, sou apenas um iniciante.
Quero partilhar com você uma meditação de Thomas Merton, monge trapista, sobre a disciplina da leitura. Independente das questões religiosas envoltas, espero que assim como eu você possa ver na arte de ler, além de um modo de aquisição de conhecimento e cultura, um momento místico de transcendência e interpenetração.
E atenção: não se trata apenas de uma leitura: é uma meditação. Por isso, disponha-se a ler e não apenas passar os olhos ;-)

Ler deveria constituir um ato de homenagem ao Deus de tôda Verdade.

Abrimos nossos corações a palavras que refletem a realidade por Êle criada ou a maior realidade que é Êle mesmo. É também um ato de humildade e reverência para com outros homens, que são instrumentos por meio dos quais Deus nos comunica a sua verdade.

A leitura dá a Deus maior glória quando a aproveitamos melhor, quando é um ato mais profundamente vital, não só da nossa inteligência, mas de toda a nossa personalidade, absorvida e refeita na reflexão, na meditação, na oração, ou até mesmo na contemplação de Deus.

Os livros podem falar-nos como a voz de Deus, ou a dos homens, ou como a algazarra da cidade em que vivemos. Falam-nos com a voz de Deus quando nos trazem luz e paz e nos enchem de silêncio. Falam-nos com a voz de Deus quando desejamos nunca dêles nos separar. Falam-nos com a voz dos homens quando sentimos desejo de ouvi-los novamente. Falam-nos como a algazarra da cidade quando nos mantêm presos por uma lassidão que nada nos comunica, não nos dão paz, nem confôrto e, no entanto, não nos deixam escapar ao seu engôdo.

Livros que falam com a voz de Deus fazem-no com demasiada autoridade para nos divertir. Os que falam com a voz de homens bons, nos atraem pelo seu encanto humano; cresecemos encontrando nêles nossa semelhança. Ensinam-nos a melhor nos conhecer reconhecendo-nos num outro.

Livros que falam como a algazarra das multidões nos reduzem ao desespêro pelo simples pêso do seu vácuo. Distraem-nos como as luzes das ruas da cidade à noite, com esperanças que não podem ser realizadas.

Por maiores e por mais amigos que nos possa ser os livros, não substituem, todavia, pessoas; são apenas meios de contacto com grandes personalidades, com homens que possuíam mais do que sua parte individual de humanidade, homens dotados de qualidades para o mundo inteiro e não apenas para si.

Idéias e palavras não constituem o alimento da inteligência, mas sim da verdade. E não uma verdade abstrata, que alimenta apenas o espírito. A Verdade que um homem espiritual busca é a Verdade total, realidade, existência e essência conjuntamente, algo que possa ser abraçado e amado, algo que possa receber a homenagem e o serviço de nossas ações; mais do que uma coisa, mas pessoas ou uma Pessoa. Aquêle cuja essência é sobretudo existir: Deus.

Cristo, a Palavra Encarnada, é o Livro da Vida. Nêle é que lemos Deus.

(Thomas Merton, Na liberdade da Solidão. Editora Vozes, 1961, p. 55s.)

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